quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Índio quer papel e caneta


O povo indígena, que em determinada época possuía uma língua ágrafa, transmitia sua cultura através da oralidade. A transmissão dos conhecimentos, crenças e costumes era toda feita através da língua falada. Isso se estendia para a narração de histórias, que era essencialmente oral. Ao fazer contato com o homem branco, índio aprende a escrever, e é através da língua escrita que podemos hoje ter acesso a toda a cultura indígena e o que é melhor, conhecer sua visão dos fatos, seu olhar para o mundo. Tudo isso porque índio agora não só escreve, mas é escritor.
Finalmente temos, no Brasil, literatura indígena, leia-se, literatura feita por índios. Antes, há muitos anos, tínhamos literatura indianista, histórias sobre os índios, cujo maior expoente foi José de Alencar, com seu O Guarani. Mas faz um certo tempo que um grupo de escritores indígenas vem fazendo barulho no cenário literário brasileiro. Dentre esses escritores destaca-se um nome, Eliane Potiguara. Mulher, índia e escritora. Representante de duas minorias, uma social e outra étnica, a escritora produziu bastante coisa de significativo para o mundo da literatura.
Além de escritora, é poetisa, contadora de histórias e professora formada em Letras. Criou a primeira organização de mulheres indígenas do país: Grumin (Grupo Mulher-Educação Indígena). Participou da elaboração da “Declaração Universal dos Direitos Indígenas”, na ONU em Genebra. Escreveu três livros: A terra é a mãe do índio (1989);Akajutibiró, terra do índio potiguara (1994) e o mais recente, Metade cara , metade máscara. Possui,além dessas obras,outros textos dispersados em jornais, sites e revistas. Foi indicada para receber o prêmio Nobel da Paz por sua luta pela causa indígena no ano de 2005. Criou o primeiro jornal indígena e fez vários boletins conscientizadores, além de uma cartilha de alfabetização indígena no método Paulo Freire com apoio da Unesco. Participa de várias conferências, palestras e encontros, tanto pela defesa do direito dos índios como pela sua produção literária. Eu mesma já assiti a uma de suas palestras na Univesidade do Estado do Rio de Janeiro no I Encontro de escritores indígenas no ano passado.Ufa, é muita tarefa para uma mulher só. E não é só isso.Tem muito mais coisa que Eliane vem fazendo por aí e que não caberia em um texto só. Enfim, uma mulher guerreira e revolucionária, como todos os índios e todas as mulheres. Uma ótima representante da nossa causa também!